Sobre o Clipe Cantadeira

O clipe por Josi Lopes:

O vídeo que antes era de um registro da gravação do single em estúdio acabou se transformando em cenas em que me expresso de uma maneira livre, meu corpo/voz extra cotidiano sem máscaras, em contato com a cidade de são Paulo, como eu não havia experimentado antes.

Morei em São Paulo por cinco anos e ficava na maioria do tempo dentro do teatro, atuar musicalmente exige uma jornada de trabalho exaustiva de muitas horas e as vezes eu sentia que a personagem tomava conta do meu corpo/voz a ponto de ser difícil me desvencilhar dela, essa era um sensação que sentia ao final das temporadas de apresentação.

No clipe de CANTADEIRA vi pela primeira vez meu corpo/voz transformado por minhas vivências, em cena e fora dela. Fiquei emocionada e feliz, pois estava vendo um corpo vivo e expressivo da mesma forma que essa música é pra mim. Além disso, não tinha nenhuma personagem, sou eu sendo eu mesma na roupa, no jeito de dançar, no sorriso e brilho no olhar. No primeiro clipe que lancei da música espelho, usamos o afro futurismo como referencia estética, criamos uma espécie de personagem, pensamos numa dramaturgia. Cantadeira é diferente, é outra pegada e que marca outro momento que estou vivendo, sem juízo de valor.

Gravamos a segunda diária do clipe, em um único dia, na real, em um fim de tarde. Não ter recurso é isso, é nos colocar no lugar camaleônico, tendo que se virar com o que tem e também extraindo disso o sumo da criatividade. Minha relação com São Paulo agora é outra, talvez mais fluida, aproveito as temporadas na cidade para realizar coisas, fazer shows, encontrar amigos. Dessa vez fui participar de um festival de Jazz do SESC POMPÉIA com minha nova banda, ICONILI e aproveitei um dia de folga para gravar com Diego, fomos nós dois para o pico do Jaraguá.

A ideia de me expressar corporalmente estava latente em mim, inclusive de uma maneira que estivesse livre de formas, já que no roteiro era somente filmar o movimento de um corpo/voz em transformação e reconhecimento com o espaço. Com a impossibilidade de filmar dentro do parque por conta do horário fomos para a rua e a partir do momento em que colocávamos a música eu iniciava um processo de improvisação corporal que me levava a vários lugares de sentimento, vinha à tona o motivo pelo qual eu tinha escrito aquela canção, o reconhecimento da existência, o diálogo com os horizontes que me aproximavam da minha mineiridade.

Nasci em Belo Horizonte e só fui entender a beleza da cidade depois que fui morar em uma cidade em que o horizonte era concreto e céu, morava em um apartamento em que a serra da Cantareira fazia parte da paisagem da janela, as vezes ficava horas olhando encontrando lá um pouco de BH da montanhas e serras. Depois que voltei a morar em BH e andando pela cidade via a beleza que eu não encontrava a beleza da cidade e a beleza interior de mim.

Mas nem só de beleza vivemos e para enfrentar o que não é belo, o que não é justo, o que não é para o bem comum, o que não é bom para o bem pessoal é preciso resistência, sensibilidade, amor e foco para ocupar os espaços que sempre foram nossos e por muitas vezes foi negado por um sistema opressor.

Ser artista, mulher, negra, LGBTQ e periférica em nosso País, nesse contexto em que vivemos, exige uma consciência do estado da presença e o que ele reverbera a nossa volta.  Gravamos esse single em plena greve dos caminhoneiros, enfrentamos inclusive dificuldades de locomoção para nos encontrar, percebi aí o empenho da equipe para chegar até a gravação. Realmente sem parcerias não nos movemos, por isso sou grata a todos que estão construindo essa história comigo.

Durante a gravação do clipe, na rua, interagindo com as pessoas, com os lugares, com os carros que paravam pra ver esse corpo/voz em movimento com a cidade, se expressando com o portão do parque fechado, com a banca de flores em frente a Estação do metrô, Clínicas, aquelas cores me deixaram extasiada como nunca, ganhei até um buquê do Diego.

O corpo/voz em movimento interagiu também com as militantes indígenas (existe uma comunidade indígena Guarany no pico do Jaraguá) que encontramos no ponto de ônibus, tiveram outras pessoas também, mas não as encontramos na internet para pedir autorização de imagem. Uma coincidência feliz foi acharmos no Instagram Priscila Patajoara e Samana Etama, mulheres indígenas que como nós estavam naquele lugar em busca de algo que era maior, o contato com o interior, com as raízes profundas da ancestralidade.

 

O corpo/voz que funda uma história a partir de suas vivências nos caminhos pelo mundo, deixando ser atravessados e reverberando o que a rua nos apresentava, o  que a música nos dava, em conexão com o universo, com que estava visível e o invisível,   dialogando com os carros que paravam para ver, com as pessoas que aceitavam ou não esse corpo negro diásporo em movimento. Esse processo de gravação do clipe Cantadeira me fez encontrar uma São Paulo e horizontes internos que se estão dentro de cada ser ou espaço físico que deparamos na rua, uma São Paulo feita de luta, de juventude, de beleza no povo que resiste diariamente.

Sobre Di Rodrigues (Diretor do Clipe):

Trabalha com conteúdo para mídias digitais, publicidade e video-clipe.

Tem foco com a representatividade negra e cultura LGBTQ, dirigiu o video-clipe “Muderno” de Diego Moraes, sucesso no youtube.

É também é filmmaker do canal de música no Youtube “Quintal”, onde já passaram artistas como Xênia França, Tuyo, Duda beat, Não Recomendados, Fabriccio, Tetê Espindola, entre outros.

A C38

É um hub criativo, que desenvolve conteúdo para os segmentos de moda, música, publicidade e cinema. Cada integrante da C38 tem uma especialidade, contudo na prática, o processo é bem colaborativo. As produções prezam ao máximo a autenticidade e o engajamento, evitando a verticalizaçao.

A C38 tem como missão fazer com que as marcas se comuniquem de forma verdadeira, democrática e inclusiva. Dessa forma, todos podem ser representados. A produção de conteúdo leva isso no DNA.

 

Sobre o Clipe por Di Rodrigues:

O conceito do clipe é construído inteiramente em cima de um processo.

Josi me fez o convite para registrar a nova música dela na YB Music. Foi onde tudo começou, não fazíamos ideia que esse material se tornaria uma história. Ela me contou que tinha vontade de conhecer o pico do Jaraguá, mesmo morando em São Paulo nunca tinha ido visitar. Como ela voltou a morar em Minas, nos falamos e fomos juntos para lá com a intenção de gravar algumas cenas extras. O processo foi livre desde o inicio e não nos apegamos a nenhum roteiro, de alguma forma sabia que podia contar com esse corpo/movimento da Josi para cenas de dança contemporânea no filme.

Quando criamos dessa forma, o céu é o limite, o universo tem formas de retribuir a ação de uma maneira muito bela e generosa, tudo que temos ao nosso redor vira narrativa, portanto, quando filmamos com a letra da música na nossa cabeça, tudo começou a se conectar e a fazer sentido a partir do registro. Um belo exemplo disso é a cena onde a Josi interage com uma grade de um terreno privado e o trecho da música fala de medo. A grade é alta e totalmente enferrujada com um cadeado, essa imagem é a síntese desse lugar de medo, onde precisamos nos trancar e colocar grades em um vazio para nos sentir seguros.

A última cena da nossa diária foi no metrô Sumaré, todos os takes nesse ambiente me lembram o filme “Amores Expressos” do Diretor chinês Wong Kar Wai, que admiro muito. E essas cenas foram fundamentais para a narrativa de corpo no filme.

No caminho de volta, conhecemos duas militantes que estavam voltando de um encontro indígena. Em 2019 como o novo governo a demarcação de terras indígenas não esta mais a cargo da Funai, mas sim do Ministério da Agricultura, uma mudança perigosa e injusta. Resistir e ocupar nunca foram tão urgentes e necessários.